O copo e o curioso
-É como um copo vazio. Entende?
-Como assim um copo vazio?
-Cara, a maioria das pessoas só reconhece o seu valor quando outros o notam, o que faz com que elas queiram construir uma personalidade que seja aceita por todos em sua volta.
-E o que isso tem a ver com copos?
-Você ainda não entendeu? Essas pessoas são como copos vazios! Elas montam uma espécie de casca em volta delas. Ela se preocupa em desenvolver uma aparência usando como padrão o que se aceita como moral e interessante por aí.
-Sim, e daí.
-E daí? Bom, imagina o seguinte... Vou usar esses três copos aqui... O primeiro só reconhece que tem valor quando o segundo e o terceiro o dão valor. O segundo... Quando o primeiro e o terceiro também... E por aí vai.
-E?
-“E”, que se você prestar atenção é como a teoria dos conjuntos. Se o valor vier sempre de fora, ele estará em algum lugar entre os copos. Como... sei lá, uma falange. Ele será amorfo e intangível. Será o senso comum e por tanto, volúvel. Hoje, o que é aceito como “bom”, pode não ser amanhã e o copo pode perder todo o seu valor de repente. Isso gera uma insegurança tremenda. Essas pessoas podem ser chamadas de “pessoas de segunda mão”.
-Por que “pessoas de segunda mão”?
-Bom, porque todo o valor dela vem dos outros.
-E o que isso tem a ver com o fato de todo lugar que nós vamos, as pessoas não irem com a sua cara?
- Bom, a verdade é que se um quarto copo chega e esse copo está cheio, as pessoas se sentem desconfortáveis.
-Anh?
-É simples, quando chega uma pessoa que acredita que as virtudes de um homem são objetivas, que ele às tem ou não às tem, ele mesmo reconhece o seu valor, garantindo orglho e segurança.
-E isso incomoda as pessoas?
-Algumas sim, mas não todas. Mas a verdade é que como as virtudes de uma pessoa para ele são objetivas e tem apenas um ponto de referência, o ser humano, ele não liga para o que é socialmente aceito como virtude. Assim, todo o esforço das pessoas perto dele não vale de nada. Pelo contrário, todo o tempo em que as pessoas estavam ocupadas com a aceitação do grupo e não com a própria, fez com que ele note um vácuo dentro delas e as despreze.
-E por isso elas te ridicularizam?
-Exatamente! Tem basicamente duas reações possíveis dos copos vazios diante de um copo cheio. A humildade e a admiração por esse copo, o que gera uma aproximação e um afeto verdadeiro, ou a tentativa de desvalorizá-lo diante do grupo, de modo a retirá-lo do jogo. Mas isso no fundo não acontece, porque ele é um ponto de luz na escuridão. Ele está jogando o verdadeiro jogo. Os outros só pensam que estão jogando, mas nem sabem as regras.
-E quais seriam esses valores objetivos?
-Bom. Isso pode demorar.
-Cara, eu não estou com pressa.
-Ok, vamos lá. O negócio é o seguinte. Há muitos anos atrás um filósofo que você já deve ter ouvido falar, definiu que o universo é tudo o que existe. E ele separou o universo em dois grupos. Os seres vivos e os mortos. A distinção entre esses dois grupos era que o indivíduo que faz parte do primeiro existe como ser vivo porque tem que agir para se manter como tal. Já o que faz parte do segundo já existe como ser morto sem precisar fazer nada. Como uma pedra, por exemplo.
-Quem é o filósofo? E o que isso tem a ver com o que eu perguntei?
-Aristóteles e calma. Continuando. O ser vivo é aquele que tem que lutar pela sua existência como tal. Se não o fizer ele deixa de existir como ser vivo e passa a ser morto.
-Hum.
-E dentro do grupo dos seres vivos ele criou vários subgrupos. Um em particular recebeu atenção especial. Só tinha um “integrante”. O homem.
-Por quê?
-Porque o homem tinha algo de único. A razão.
-Hummmm...
-Veja bem. A forma que os seres vivos tem de interagir com o mundo é através dos chamados 3 estágios da cognição. A sensação, percepção e concepção. O homem é o único capaz de alcançar o último.
-E qual a diferença entre eles?
-É através da sensação que nós absorvemos as primeiras informações do mundo. Os cinco sentidos mesmo! Já através da percepção se cria um breve conhecimento sobre a sensação. Um é seguido do outro. É quase automático. Mas é com a concepção que se criam conceitos sobre algo através das informações recolhidas e associadas entre elas.
-Não entendi nada.
-Vou dar um exemplo. Um inseto sente o calor do fogo e se afasta. A sensação lhe proveu sobrevivência, mas nada impede que ele caminhe na direção do fogo novamente em outra ocasião. Já um rato por exemplo, quando interage com o fogo pela primeira vez, sente a dor e se afasta, mas ele percebe, ou seja cria uma memória. É uma forma primária de conhecimento, indicando que ele deve evitar o fogo por toda a sua vida. Afinal ele tem que lutar pela sua existência.
-E a concepção?
-A concepção é quando um homem se queima com o fogo, percebe que a princípio isso faz mal a ele, mas pensa que se faz mal a ele, pode fazer mal a outros animais, como seus predadores. Ele nota que o fogo também ilumina o ambiente e que deteriora a carne de uma forma que fique mais fácil de comê-la. Assim, ele cria o conceito de fogo que o ajuda a sair das cavernas e parar de itinerar tanto, porque ele pode se aquecer e se proteger com o fogo.
-Ah! Isso que as pessoas querem dizer com o descobrimento do fogo?
-Exato.
-Mas sério... O que isso tem a ver com o que eu perguntei antes?
-É que só pelo fato de usufruirmos da razão é que somos capazes de criar conceitos, que são a base do conhecimento. E é esse que conhecimento que nos faz sobreviver, ou seja, lutar pela nossa existência. O conhecimento pode ser guardado e passado a diante, assim faz da espécie humana a única que pode realmente progredir, faz dela heróica.
-E a pergunta!
-Bom. Eu já respondi em parte. A razão é o primeiro grande valor objetivo que um ser humano tem que conquistar.
-Hum, e o segundo?
-O segundo é a produção. Porque a produção nada mais é do que a aplicação da razão para o problema da sobrevivência. Naturalmente ficamos felizes quando produzimos e acabamos por admirar quem produz.
-Porque ficamos felizes?
-A felicidade e a tristeza, como o prazer e a dor, nada mais do são que mecanismos complexos de reconhecimento do sucesso ou o insucesso da nossa existência.
-São só esses dois?
-Não. Ainda tem um terceiro. A auto-estima. Que atingimos somente quando reconhecemos que somos racionais e produtivos. Existem outros valores que podemos alcançar, mas que são meras conseqüências. Primeiro temos que alcançar os três primeiros que são a base de tudo.
-E quando alcançamos?
-Aí sim, somos virtuosos. Conquistamos as três grandes virtudes de um homem: racionalidade, produtividade e orgulho.
-Orgulho?
-Não é esse conceito de orgulho que as pessoas usam por aí. De uma pessoal que não dá o braço a torcer mesmo quando está errada, por exemplo. Isso é irracional.
-Que conceito, então?
-O sentimento de orgulho próprio, a autovalorização, a auto-estima. Um indivíduo que sabe que é racional, que é produtivo e que tem auto-estima é um “copo cheio” e sem “casca”.
-Copos, cascas, do jeito que você fala parece a coisa mais fácil do mundo ser feliz.
-Não, não é. Tudo isso que falei é muito complexo, não se engane. A razão é nosso instrumento de sobrevivência, mas o problema é que o ser humano pode escolher não usá-la.
-E daí?
-E daí que ele pode caminhar para sua própria destruição. Pode criar conceitos absurdos e irracionais que juntos montam conhecimentos perigosos e que como todos os outros acabam sendo passados a diante e confundindo a cabeça de todo mundo. A confusão gera muitas dúvidas e dúvidas geram medo. Não há nada pior para um ser humano do que conviver com medo de tudo o tempo todo. E quando ele olha em volta para tentar acabar com esse medo sanando suas dúvidas, ele encontra mil respostas diferentes que geram mais confusão ainda na cabeça dele. Uma bola de neve sem fim. É o mal do relativismo.
-Relativismo?
-Ihhhh... Isso é história para outro dia... Estou morrendo de sede.

